A Culpa não era de Deus
Se alguém me perguntasse, qual foi uma das melhores coisas ao chegar na casa dos 40, com certeza eu diria que entender que a espiritualidade não é um conjunto de respostas, não é uma religião X, e sim uma forma de caminhar e enxergar a vida.
Sinto que quando o assunto é espiritualidade, existem duas versões minhas coexistindo dentro de mim. rs
E até que acho isso legal, porque é como se eu pudesse dialogar comigo mesma sobre os meus dois pontos de vista e chegar em reflexões muito profundas e que ao meu ver, são soluções para metade dos problemas que criei para mim durante toda a minha vida.
Tem uma Lidi que foi criada na igreja evangélica (meio que contra a vontade dela) e que absorveu inúmeras crenças religiosas e que também tem muita base teórica sobre doutrinas cristãs e uma visão de um Deus um tanto quanto perverso, e essas informações sempre bugaram a minha cabeça, porque hoje eu sei que naquela época já existia uma versão questionadora, mas reprimida dentro de mim, que no fundo sabia que Deus e espiritualidade eram muito além daquilo que me diziam.
A minha versão questionadora nasceu dentro da igreja, mas foi lá também que nasceram muitas das minhas referências sobre fé.
E depois de viver a religião cristã na prática e ler, consumir conteúdo e conversar com pessoas sobre o espiritismo, mesmo sem nunca ter frequentado nenhum lugar espírita, minhas duas versões debateram sobre tudo isso e chegamos a uma conclusão que me ajudou a quebrar crenças que eu não escolhi ter, mas que foram plantadas em mim por terceiros.
Se partirmos dos princípios básicos da religião evangélica, Deus sempre respeita o livre arbítrio de todos os seres humanos, o que não acho que esteja errado. Mas não pode ser só isso né?
Como justificamos o amor de Deus quando pensamos numa criança sendo abusada sexualmente por um adulto? Até onde o livre arbítrio desse pedófilo deveria ser respeitado?
Ou quando pensamos em uma criança sofrendo com um câncer terminal? Ou uns morrendo de fome enquanto outros ostentam? Onde está Deus? É a pergunta que fazemos quando nos deparamos com esse tipo de situação, e acreditamos que Deus está no controle de tudo e que tudo é permissão dEle.
Agora, se partimos dos princípios básicos do espiritismo, nós somos espíritos encarnados em um corpo que escolhemos, com os pais, a família e a vida que escolhemos.
Eu por exemplo não tive uma vida nada fácil, tive uma infância e adolescência de muito sofrimento e privação, e hoje me ver vivendo coisas que eu nunca imaginei antes me traz a convicção de que eu sou co-criadora da minha própria história,
e pensar que eu vim à terra sabendo exatamente tudo que eu ia sofrer, tudo que eu ia superar e tudo que eu ia conquistar,
me traz à autorresponsabilidade sobre a minha própria vida, me traz a certeza de que, embora na prática, eu não saiba exatamente viver essa vida, o meu caminho sou eu quem traço, e que estou vivendo exatamente a vida que escolhi, e pensar assim me ajuda a ser responsável pela vida que me foi confiada.
Óbvio que chegar a essa conclusão me faz questionar certas coisas, como e por que eu não escolhi encarnar herdeira, padrão, com uma família super estruturada?
E eu sei a resposta, a minha alma sabe o que eu preciso, que o que me move é superar obstáculos, lutar e vencer, sonhar e realizar, evoluir e olhar para trás e admirar minha trajetória com muito orgulho. É isso que me dá tesão em viver essa vida que é um game onde a gente cria o hoje sem pensar no ontem e sem certeza alguma sobre o amanhã, embora nesse ponto aqui eu terei que me contradizer, eu sempre tive a certeza de que uma versão muito melhor de mim estava pronta e vivendo o que eu sempre sonhei em outra dimensão não muito distante de mim, e que eu estava a alguns passos de um portal para acessá-la, e que essa versão sempre existiu, mas ainda não estava integrada ao meu presente, e por isso sou obrigada a assumir que ela era minha versão do futuro, mas que também é a minha versão do presente que já existe. confuso? talvez. mas é assim que enxergo a vida, pelo menos a minha rs
Enfim, depois de quarentar entendi que Deus não deve e não pode ser questionado sobre tudo que já me aconteceu, EU ESCOLHI A MINHA VIDA E EU SOU RESPONSÁVEL POR ELA.
Dito tudo isso, finalizo essa reflexão afirmando que a minha espiritualidade não nasceu nos momentos bons, mas foi construída em momentos difíceis.
Bjs para mim.

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