O sonho que nasceu de um castigo
Eu tinha 12 anos quando, para surpresa e decepção de muitos, eu reprovei a sexta série, e não foi por notas e sim por faltas, encontrei uma brecha nas leis impostas pela minha mãe que saía cedo de casa para trabalhar e retornava só à noite e comecei a cabular aulas para fazer nada, até que virou um vício e eu nem sabia mais como voltar.
Última reunião escolar daquele ano e minha mãe descobriu tudo e, como castigo, ela achou de bom tom me contar uma mentirinha que virou a minha maior obsessão de vida.
Eu cresci em um contexto um tanto quanto confuso, criança de periferia muito pobre, mas que vez ou outra viajava com os patrões da mãe doméstica, frequentava a casa deles e desde cedo soube identificar que tinha algo muito bom para além das paredes de madeira que chamávamos de nossa casa.
E inserida nesse universo da casa dos ricos, o mundo Disney me foi apresentado por fotos e pelúcias que as filhas dos patrões traziam como souvenirs para mim de suas viagens de final de ano, enquanto isso, no meu bairro, as crianças mal sabiam quem era o Mickey e a Cinderela, e se sabiam era porque tiveram a sorte e privilégio de ganhar algum livro e ter alguém que contasse aquela historinha para elas, mas uma coisa é fato, nos anos 80 nenhuma criança da periferia do Grajaú sabia da existência dos parques da Disney. Eu já estava à frente das minhas amigas nessa informação.
Voltando para o momento em que a minha mãe resolveu me castigar, ela me disse o seguinte:
Eu poderia te dar uma surra por você ter repetido de ano, mas seu castigo será muito pior. Seu presente seria uma viagem para a Disney com os meus patrões, e você acaba de perder esse presente.
(Preciso abrir este parêntese para dizer que estou contando um fato isolado da minha vida, e que a minha mãe já foi perdoada por essa falha, depois de alguns anos de terapia, entendo que àquela mãe solo, que saía às 5h e voltava às 19h para me sustentar, lutava com as ferramentas que tinha, e com certeza ela não tinha noção de como isso iria reverberar dentro de mim anos depois. Essa história não está sendo contada para colocar em check a forma como ela conduziu a minha criação e sim para contar a minha experiência de como foi importante tomar responsabilidade pela minha vida adulta e curar a minha criança interior.)
No momento em que recebi aquela informação, minha primeira reação foi de pensar, mas eu não queria ir à Disney, eu queria uma bicicleta, aliás, meu sonho era aprender a andar de bicicleta, e com 12 anos isso ainda não tinha acontecido (Spoiler, só aprendi com quase 40 anos, faço um post depois sobre isso.), mas internamente algo aconteceu comigo.
Eu não sei descrever o momento em que minha ficha caiu de que eu tinha perdido a chance de viver algo que eu sabia que a condição financeira da minha mãe jamais me proporcionaria, e toda vez que pensava nisso eu me maltratava com as palavras e aquilo começou a doer fisicamente dentro de mim.
E essa dor me acompanhou por anos, e os anos foram passando, e a sensação de não merecimento foi crescendo junto comigo e fui me tornando a adulta mal resolvida que me prejudicou muito até alguns poucos anos atrás. Conforme eu fui construindo a minha vida profissional eu fui conhecendo pessoas novas, e de vez em quando cruzava o caminho de alguém que já tinha ido à Disney e ficava fazendo inúmeras perguntas sobre o assunto e fazia questão de contar a minha história e sempre afirmava que aquele era meu maior sonho de vida.
Em 2009 eu fiz amizades com algumas pessoas que eram bem familiarizadas com a Disney, e sempre falávamos sobre esse assunto, e em 2014, essas pessoas me disseram que iriam à Disney em alguns meses e que se eu quisesse ir com elas era para eu correr e tirar meu visto e que só teria custos com as passagens e os tickets do parque, o que, para minha realidade da época significava muito dinheiro, já que eu era uma funcionária pública com um salário de R$ 1.000,00.
Eu só pensei, vou fazer isso acontecer, tenho um ano para isso, vai dar certo.
Peguei um consignado (armadilhas disfarçadas de facilidades para funcionários públicos e aposentados) no banco e arquei com os custos do passaporte e do visto, preciso ressaltar que foi relativamente fácil o meu processo do visto, eu acredito que o fato de ser servidor público na época e colocar no relatório os nomes das meninas com quem eu iria viajar facilitou minha aprovação que aconteceu de primeira.
Agora só faltava o principal: o dinheiro das passagens e os tickets do parque, obviamente não consegui levantar o recurso e essas amigas me prometeram que em 2015 voltariam à Disney e que eu poderia ir com elas. Uma série de fatores aconteceram e a viagem de 2015 que elas fariam não aconteceu, e que bom, porque sinceramente eu não teria dinheiro para acompanhá-las rsrs
Fiquei exatamente 10 anos com esse visto engavetado, e sem a menor condição financeira de fazer esse sonho sair do papel.
Em 2022 entrei na melhor empresa que já trabalhei, aquela sobre a qual eu disse em outro post que eu orei para que eu fosse a mais 'burra' da mesa, que por sinal é a empresa que estou até hoje (eu vou escrever sobre a minha entrada lá), nesta empresa eu conheci pessoas classe-média, ricos e super ricos e foi ali que eles me fizeram acreditar que ir à Disney era mais fácil e mais simples do que eu imaginava, e que com meu novo salário seria possível.
Ainda em 2022 eu me encontrei com a ex-patroa da minha mãe, e conversamos muito sobre a minha trajetória de vida depois da morte da minha mãe e eu vi a chance de me desculpar por ter reprovado a sexta série e ter perdido a viagem da Disney, e naquele momento eu soube que nem ela sabia dessa história, ou seja, minha mãe criou o castigo sozinha, da cabeça dela mesmo rs
E naquele dia eu entendi que meu sonho nasceu de uma mentira que me fez carregar por mais de 30 anos a sensação de não merecimento, e agora eu precisava mais do que nunca curar essa ferida aberta na minha criança interior! Eu declarei que eu iria à Disney logo, só não sabia ainda como faria acontecer.
De tanto eu falar em voz alta que iria à Disney, no final de 2023 uma pessoa muito querida do trabalho comprou a ideia e resolveu iniciar uma rifa que rendeu um pouco mais de R$ 2.000,00 e esse foi o capital inicial que eu precisava para tirar meu sonho do papel, o valor em si era simbólico perto do quanto a minha ida à Disney de fato custou, mas era o que eu precisava, um pequeno facho de luz na minha estrada para eu me entregar àquela experiência de materializar um sonho e iluminar toda a minha vida com a minha própria luz a partir dali.
Coloquei aquele dinheiro numa conta separada e não mexi nele para nada, tudo que me sobrava eu ia colocando ali.
E em 2024 corri para renovar meu visto sem que eu precisasse passar por uma nova entrevista. E deu tudo certo.
Meu marido não tinha visto americano, mas já tinha ido para a Alemanha duas vezes para estudar, então o processo do visto dele também foi bem fácil e recebeu a aprovação de primeira.
Tudo tava dando tão certo, meu sonho tava se materializando bem na minha frente. O momento era este, não porque exista dia e hora para as coisas acontecerem, mas porque eu finalmente tinha entendido que eu merecia viver isso, e quando entendi eu me dei permissão para viver o sonho. Eu acredito que realizar sonhos está mais relacionado ao momento em que estamos prontos para receber do que a um dia e hora específicos.
E passei 2024 todo guardando tudo que eu podia, e fui vendo minha caixinha da Disney crescendo e tudo se tornando cada vez mais possível.
Em maio/2025, com 43 anos, eu vivi os melhores dias da minha vida até ali. Foram 10 dias vivendo o sonho que plantaram em mim e que me fez mal por tantos anos. Mas a magia da Disney me ajudou a curar minha criança interior, perdoar os anos que passei não acreditando em mim mesma, me ver em frente ao castelo assistindo a queima de fogos e as lágrimas descendo foi remédio para todas as feridas da minha alma.
Foi o maior sonho já realizado, com certeza!
Eu voltei dessa viagem com a convicção de que eu podia realizar TUDO que eu quisesse nessa vida!
Bjs pra mim!

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