Como aprendi a dirigir depois dos 40


Durante a minha vida, o primeiro contato que tive com uma mulher dirigindo foi com a ex-patroa da minha mãe, sobre quem já falei aqui, e no auge dos meus 8 anos de idade, eu achava o máximo andar de carro, já que ao contrário do ônibus, aquilo era novidade para mim. Eu observava encantada enquanto ela girava o volante do carro com firmeza e na época não entendia que era a baliza que exigia aquele movimento, aliás nem sabia o que era baliza rs

As únicas vezes que tive contato com carro na infância foram com ela.

Obviamente nunca nem ousei sonhar com a possibilidade de ter um carro ou aprender a dirigir, muito pelo contrário, cresci com a certeza de que aquilo não era para mim.

Na adolescência, meu primo pegava a moto do meu tio escondido e fazíamos rolê pelo bairro, então ao contrário do carro a garupa da moto era o meio de transporte mais próximo da minha realidade, depois do busão, é claro.

Cresci, e a luta de começar a trabalhar para sobreviver começou cedo, então eu estava mais preocupada em ter o que comer do que sonhar com algo tão distante da minha realidade; até que na época da faculdade eu fui fazer um bate e volta em Campos do Jordão com duas amigas, e na volta a única que dirigia passou mal, e saber que o 'namorado' dela na época chamou a mim e a outra amiga de inúteis por não dirigir e não poder ajudá-la, me deixou mal, e naquele momento nasceu algo do tipo: "E se...?"

Eu tinha um discurso pronto sempre que alguém me questionava: eu não sei nem andar de bicicleta. E hoje sei que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas é que na época fazia sentido rs

Eu vivia sonhando que precisava pegar um carro por algum motivo e sair dirigindo, e por incrível que pareça no sonho eu conseguia desenrolar, mas acordava me tremendo e grata por ter sido apenas um sonho.

Perdi uma amigona em um acidente de carro e isso só reforçava a ideia de que dirigir era perigoso, nessa ocasião eu ignorei completamente o fato de que tanto ela quanto o motorista daquele carro estavam altamente alcoolizados.

Até que, em 2015, por influência do meu irmão, voltei a frequentar uma igreja em células e na época eu queria acompanhar a galera nos rolês gospel e era muito difícil por não ter carro, não saber dirigir, o Uber ainda não era comum, principalmente na periferia.

E foi ali que me dei conta de que o meu marido também não dirigia. Quando começamos a namorar, em 2002, ele só tinha uma bicicleta que o acompanhou até esse início de visitas às células.

Eu era uma funcionária pública e meu marido um instrutor de informática na época, e o que recebíamos era o suficiente para o aluguel e para a alimentação, a realidade não permitia nos deixar sonhar com um carro. Mas eu já sabia que o primeiro passo de fé deveria ser dado, o aniversário do meu marido estava chegando, e eu comecei a vender brigadeiros na igreja e no trabalho e a grana que levantei foi o suficiente para eu ir até a autoescola do nosso bairro e pagar a habilitação dele.

Fiz um vale-habilitação em algum app de edição, imprimi e no dia do aniversário dele o presenteei.

Ele ficou mega feliz e eu mais ainda, mas agora sabia que era questão de honra fazer o carro acontecer. Mas como? Eu não sabia!

Mas começamos a falar disso com todo mundo, e um amigo próximo da família ia trocar de carro e estava passando o golzinho 2007 dele para frente e nos fez uma oferta com condições irrecusáveis, mesmo a gente não tendo o valor total rs. Eu só pensava que os brigadeiros poderiam nos salvar, sendo a nossa renda extra, e mesmo cheia de incertezas, nos jogamos.

Acabou sendo um carro para três, eu, meu marido e minha sogra, porque a bichinha nos ajudou todos os meses a honrar o pagamento das parcelas daquele carro.

Eu lembro de quando nos demos conta que aquele carrinho nos permitia sair e voltar quando quiséssemos, que significava liberdade, e isso vai muito além de ter um bem. Duas da manhã a gente voltando de algum rolê com o rádio do nosso golzinho ligado e agradecendo a Deus. Só nós dois sabemos, quantas vezes deixamos de sair por não conseguir carona para voltar para casa de algum lugar que sabíamos que terminaria na madrugada.

Foi, com certeza, a nossa primeira grande conquista. Mas parte de mim vivia dando o mérito daquele esforço para minha sogra, menosprezando completamente todo o nosso esforço e o fato de eu ter sido a primeira pessoa a dar um passo de fé.

Os anos foram passando e meu marido sonhava com o momento em que eu também tirasse a carta, pois ele não aguentava mais ser meu motorista para absolutamente tudo. E eu sempre dava uma desculpa, hoje eu entendo que eu fugia da minha independência (falo um pouco sobre minha dependência física e emocional aqui), já que dirigir significava liberdade e que me obrigaria a fazer tudo sozinha.

Até que ele resolveu me devolver o presente. Sim, no Natal de 2021 eu ganhei um vale-habilitação.

Passei por todo o processo e já adianto que foi bem estressante, suspeito que a autoescola queria me induzir a pagar um valor a mais para ter acesso à habilitação. Mas não cedi a pressão, fui pra cima e deu bom. Passei de primeira!

Em abril/22, faltando um mês para meu aniversário de 40 anos, estava com a minha habilitação nas mãos, mas na prática nada aconteceu, porque não consegui seguir adiante, me deparei com a realidade da direção dura do golzinho e acabei abandonando.

Em maio/22 fiz 40 anos, 

Em novembro/22 comecei a trabalhar,

Em agosto/23 tirei meu nome do SPC,

Em setembro/24 trocamos de carro. Sim, o golzinho serviu para dar de entrada na concessionária e compramos uma HB20 que está conosco até hoje. E daquela vez foi diferente, eu sabia que essa conquista era somente do casal e o mérito era todo nosso!

Dessa vez a direção era elétrica, tinha ar condicionado, kit multimídia, não apenas um rádio. E embora fosse menor que o golzinho, eu achava ele bem mais confortável rs.

Em novembro/24 entrei numa escola para mulheres habilitadas e alguns meses depois eu já tinha descido a serra (para a praia), já estava me jogando no trânsito de SP, inclusive a Marginal, que eu achava que seria impossível.

Comecei dirigindo só acompanhada do meu marido, depois com meu primo, que foi meu cobaia por um longo tempo, e hoje ando com a minha sobrinha de 8 anos e principalmente sozinha. E sim, dirigir é libertador! Compartilhei um pouco dessa experiência aqui.

Ainda existem coisas que me deixam desconfortável? Sim, subidas muito íngremes, vagas muito apertadas, mas em breve daremos um upgrade para um carro automático e pelo menos a questão das subidas será solucionada.

Eu amo contar essa história, porque essa foi mais uma das minhas conquistas depois de quarentar.


Bjs pra mim!






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