Nem toda maternidade termina em um nascimento
Acho que eu não tinha a pretensão de abordar esse assunto por aqui tão cedo, mas recentemente passei pela quinta perda gestacional em um período de 8 anos e achei propício divagar sobre o tema.
Em 2017, parei de tomar o anticoncepcional e depois de superar anos de vaginismo (falo disso em outro post) resolvi que estava pronta para engravidar. É importante ressaltar que eu estava frequentando uma igreja evangélica que valoriza muito o fato da mulher gerar e dar frutos. Obviamente fui influenciada.
Em dezembro/2017 recebi meu primeiro positivo. Contei para minha amiga e ela me acompanhou até o pronto socorro para fazermos o exame, me mandaram fazer um teste na própria unidade; caso desse positivo, eu sairia de lá com uma guia para fazer o exame de sangue. Na hora que entrei no banheiro da UBS, percebi que a urina saiu meio rosada, logo depois fui tomada por uma cólica com um leve sangramento cor de rosa clarinho. Não falei nada nem para minha amiga e nem para a enfermeira. O teste deu positivo e saí de lá com a guia do exame de sangue.
Fomos eu e minha amiga ao laboratório. O exame deu positivo e, saindo de lá, passamos numa lojinha de bebê, comprei um sapatinho e uma caixinha de presente, e à noite presenteei meu marido com a notícia. A cólica seguiu firme junto com um sangramento leve.
Dias depois, o fluxo de sangue aumentou e precisei ir ao hospital, que me pediu para iniciar um acompanhamento de Beta HCG seriado, que serve para acompanhar se a taxa está aumentando ou diminuindo. E depender do SUS naquela época foi doloroso, pois o resultado do exame levava dias para sair.
E foi por meio desse acompanhamento que recebi a triste notícia de que a gravidez não estava evoluindo.
E daí vieram as fases, negação, questionamentos, dor, choro, luto, aceitação e esperança.
Em 2019 e 2020, tive dois episódios similares. Meu corpo expeliu uma espécie de 'coágulos' (diferente de tudo o que eu já tinha visto). Isso foi acompanhado de uma dor intensa. Por conta própria fiz um teste e em ambos os casos, os testes deram positivo. Segui com o Beta HCG seriado e as taxas caíram.
Em 2023, foi o mais longe que a minha gestação chegou. O mês era agosto e eu notei um atraso bem irregular na minha menstruação. Lembro que eu estava feliz com o novo trabalho e cheia de planos de mudança de vida.
Fui almoçar com uma amiga do trabalho e comentei sobre o atraso para ela, e soltei a seguinte frase:
- Amiga, vou falar em voz alta para o Universo entender: a minha menstruação está atrasada, e dessa vez eu não quero estar grávida. Eu tenho planos gigantes para minha vida e, pela primeira vez, sinto que tenho a possibilidade de realizá-los. Uma gravidez me atrapalharia.
Até o final de 2024 eu me culpava muito por ter dito isso em voz alta!
Dias depois, resolvi fazer o teste de gravidez, que deu positivo. Dessa vez fiz junto com meu marido. Comemoramos e vibramos muito!
Desta vez, com plano de saúde, fiz o Beta (taxa altíssima, diferente das outras vezes) e iniciamos o pré-natal. Ouvimos o coração do bebê por três vezes e foi a melhor sensação da nossa vida.
Não tinha uma única vez que eu ia ao banheiro que não tivesse medo de ver sangue, e cada dia que finalizava sem sinal de sangue era uma alegria e motivo de comemoração. Aos poucos fomos ficando cada vez mais confiantes, já estávamos perto dos três meses de gestação e o pessoal do trabalho estava se programando para fazer o chá revelação. Tudo estava fluindo maravilhosamente bem.
Estávamos a caminho da clínica para realizar o ultrassom de rotina, e conversando sobre o possível nome dos bebês, pois a galera que ia organizar o chá revelação estava pedindo essa informação.
Ao chegar no elevador, tiramos uma foto no espelho, e me ocorreu o seguinte pensamento:
- E se eu subir o elevador sorrindo e depois descer chorando?
Deitada na maca para realizar o exame, notei que a médica começou a fazer umas perguntas do tipo:
- Quando você descobriu a gravidez?
- Quando foi seu último exame?
E eu juro que até aí eu não suspeitei de absolutamente nada.
Até que ela cansou de me sondar e soltou:
- Infelizmente, hoje eu não tenho uma boa notícia, o coração do bebê parou.
Meu mundo caiu! Só me lembro de chorar, gritar e dar murros em todos os objetos que estavam à minha frente.
Dali, meu marido muito carinhoso, parceiro e amigo me levou para o Parque Ibirapuera que ficava ao lado da clínica, e passamos a tarde por lá.
Demos a notícia a uma amiga e pedimos para que ela avisasse aos demais. Afinal de contas, o chá revelação precisaria ser suspenso.
Foram alguns dos dias mais difíceis da minha vida. Tive que aguardar meu corpo expelir naturalmente já que eu não quis optar pela curetagem. E expelir um feto morto é das piores dores de cólica que já senti na minha vida. Eu nunca pari, mas diria que a dor é semelhante a do parto. Foi horrível!
Nesta época eu ainda não tinha o entendimento que tenho hoje sobre vida, partida, morte. Então me culpei pela frase que soltei quando estava suspeitando da gravidez. Me culpei por não ser capaz de segurar um filho em meu ventre. Me julguei afirmando que eu não era abençoada por Deus. De novo, foi horrível!
Depois de vivenciar novamente todas as fases da perda, eu aceitei e renasci.
É importante deixar claro que desde a primeira perda eu e meu marido já fizemos (juntos e separados) TODOS os exames necessários para investigar as possíveis causas para tantas perdas gestacionais e até hoje não temos um diagnóstico.
Se passaram três anos desde essa perda que ocorreu em 2023 e eu segui fazendo meus exames anuais e minha médica resolveu fazer o exame de contagem de óvulos, pois eu já estava com 42 anos, e o resultado foi bem desmotivador. Não tinha mais óvulos suficientes para ter uma gravidez por via natural.
Eu nunca estive aberta para uma gravidez in vitro, pela demanda financeira e psicológica à qual eu não gostaria de me submeter.
Então segui minha vida normalmente sem me preocupar com método contraceptivo. E três anos depois, uma nova surpresa.
No dia 30/06 eu tinha um retorno com minha ginecologista para ela avaliar os exames de rotina, um detalhe importante: eu estava cogitando a possibilidade de estar entrando na perimenopausa, pois já fazia uns 4 meses que minha menstruação havia desregulado e eu não tinha mais controle das datas em que menstruaria. E meus exames para investigar a perimenopausa vieram todos negativos.
E como minha menstruação estava atrasada há um mês, minha ginecologista me incentivou/obrigou a fazer um teste de gravidez. Fiz. No trabalho, com a galera assistindo, porque eu tinha certeza de que seria mais um negativo entre tantos que já fiz na vida. E eis que deu positivo. Fiquei em choque, feliz e com medo. Fui para casa dar a notícia para o meu marido, e minha mente mergulhava entre gatilhos e traumas. Mas parte de mim se sentia esperançosa.
No mesmo dia, a cólica veio. No dia seguinte, o sangue rosinha. No outro dia, o laboratório estava em casa coletando meu sangue para fazer o Beta, que deu positivo. Em meio a muito sangue e coágulos, passei novamente pelo processo que mais me causou ansiedade na vida, o Beta seriado para acompanhar as taxas. E em uma semana foram dois exames que comprovaram mais uma perda gestacional, as taxas caíram.
Hoje é dia 14 de julho de 2026 e percebo que desta vez foi TUDO diferente.
Eu me alegrei genuinamente com a notícia da chegada do meu filho. Antes de saber que as taxas tinham caído, eu conversei com ele durante a sua partida. Eu estava no banho enquanto eu alisava minha barriga e o sangue escorria pelas minhas pernas, e em prantos eu disse a ele:
- Meu amor, você não foi planejado só porque eu achei que não podia mais te gerar, mas você sempre foi muito desejado. Eu quero muito que você fique aqui com a mamãe, mas eu também quero respeitar muito o seu propósito de vida. Se por algum motivo que eu agora não consigo entender, você tiver que partir, eu te abençoo e te liberto. Eu só peço a Deus que desta vez Ele me ajude a entender o para quê eu precisei passar por isso de novo, e, se há uma lição que você veio me ensinar, que eu aprenda. Eu já te amo e sou muito grata por você ter me escolhido como sua mãezinha mesmo que por pouco tempo. Vá em paz!
Dias depois, eu recebi a seguinte mensagem de uma amiga querida:
- Amiga, não se culpe. Entenda que cada serzinho tem seu próprio ciclo. Você tem sido casulo por um período curto de existência desses serzinhos. Observe o quanto esse último serzinho te tocou, o quanto ele te transformou sem nem você saber que ele já existia dentro de você. Ele veio e cumpriu a missão dele na sua vida e voltou para descansar na casa do Pai.
E tudo fez sentido pra mim! Do ponto de vista da ciência, foi uma perda gestacional, do ponto de vista espiritual, meu filho, assim como os outros, veio para me ajudar a evoluir enquanto ser humano, e me mostrar que dá, sim, para amar sem a garantia da permanência. E eu entendi que amar também é deixar ir.
E eu preciso deixar algo registrado aqui:
Embora eu esteja vivendo em paz, uma paz que excede todo entendimento. Eu achei lindo e criativo Deus ter me permitido viver uma gestação tão breve em um momento em que eu não estava focada nisso, mas justamente quando a maternidade havia se tornado o tema central da minha vida.
Espero voltar em breve, com updates sobre esse assunto.
Bjs pra mim, que resolvi responder diferente a um padrão que vinha se repetindo em minha vida.



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