O voo que nunca foi cancelado



Como mencionei no post anterior, em nov/25 comprei uma viagem para o Chile em jul/26 para comemorar meus 15 anos de casada e por conta da agenda de trabalho do meu marido, precisamos desmarcar a viagem.

16 horas depois da viagem comprada, entrei em contato com a companhia aérea para cancelar as passagens e, obviamente, a companhia aérea dificultou o máximo que pôde e eu não consegui falar com um humano para formalizar o cancelamento. Me restou a opção do e-mail, que logo depois veio com um retorno de que não seria possível, pois já havia ultrapassado o prazo de 24h.

Para encurtar a história, passei algumas semanas tentando resolver pelo Consumidor.gov e não obtive sucesso, e o próximo passo foi apelar para o PROCON, que finalmente resolveu a situação. Em paralelo ao processo do PROCON, a companhia aérea também entrou em contato comigo via e-mail para confirmar os dados bancários para que eu recebesse meu reembolso. Guarda essa informação.

Dias depois, recebi meu reembolso do valor integral que incluía bagagens de mão. Sim, eu havia comprado um voo daquelas promoções que só dá direito a uma mochila de 3 ou 5kg, e por isso precisei comprar as bagagens à parte.

Meses depois do reembolso, eu recebi um e-mail informando que meu voo (que até então eu achava que estava cancelado) havia sofrido uma alteração no horário de partida. Eu fiquei sem entender, mas resolvi ignorar.

Dias depois, outro e-mail com o mesmo conteúdo. Fiquei curiosa e resolvi entrar no site da própria companhia aérea e consultar o voo com o código do localizador. E, para minha surpresa, o voo em questão não havia sido cancelado e estava ativo.

Resgatei o e-mail que a advogada havia mandado e resolvi mandar um e-mail informando sobre o erro deles e solicitando o cancelamento do voo.

Dias depois, recebi um e-mail automático da companhia aérea e não da advogada, informando que o voo estava ativo e com os horários atualizados. Isso já era no final de maio e o voo seria em julho.

Mandei outro e-mail informando que, se não cancelassem o voo, eu iria fazer uso do mesmo, pois não gostaria de entrar numa possível lista de passageiros que dão no-show. Não obtive respostas.

Depois disso, fiquei todos os dias monitorando com o código localizador e o voo permanecia ativo.

Vou interromper um pouco o processo do voo para falar sobre o Felipe.

Fê entrou na empresa em que eu trabalho para ser meu estagiário, e se tornou um Analista. Hoje é o meu braço direito.

Ele é um menino da periferia, do mesmo bairro que eu, e não, eu não o levei para trabalhar lá. Eu o conheci quando estava entrevistando os possíveis candidatos do Programa de Estágio. Eu vejo MUITO de mim nele, quando eu tinha sua idade.

Sabe aquele tipo de pessoa que você bate o olho e vê uma luz brilhando? É ele. E depois que você o conhece e conhece a sua história de luta, superação e escolhas, você entende que aquela luz não é em vão. Ela brilha para além de toda dor que foi enfrentada na caminhada. E quando falo de escolhas, é porque para quem nasce na periferia, ir na contramão do crime é uma escolha que inicialmente não parece ser inteligente, ainda mais quando se trata de um menino negro.

Em várias trocas que tivemos, descobrimos que o sonho dele era andar de avião e tentamos fazer isso acontecer por duas vezes, e nas duas deram errado. Mais tarde entendemos o porquê. E assim como várias outras vezes que as coisas deram erradas na minha vida, essa história também serviu para me fazer acreditar que no momento certo tudo faz sentido.

Voltando ao voo, numa das vezes que entrei no site da companhia aérea para consultar o voo, eu estava na empresa e talvez tenha sido a primeira vez que eu prestei atenção na informação que estava ao lado do meu nome na reserva, que eu poderia transferir as passagens para outra pessoa. Olhei para o lado e vi o Fê e o Higor, o outro analista que também é alguém querido por mim e que, embora já tenha andado de avião, até então ainda não tinha saído do país.

Nesse momento eu não pensei muito, agi totalmente por impulso. Eu disse:

- Fê, se eu conseguir transferir essas passagens mesmo, você vai realizar o seu sonho de andar de avião, conhecer outro país e a neve numa mesma viagem, e ainda vai poder ir com o Higor.

Eles enlouqueceram, literalmente.

E como dois Analistas JR, a primeira preocupação deles foi como me pagariam.

É claro que eu não cobraria por algo que eu já havia sido reembolsada, né? Ou talvez sim, se eu estivesse repassando para outras pessoas em outras condições. Não sei! Eu estava grávida e nem sabia, mas me sentia muito sensível naquele momento, e meu coração estava transbordando em imaginar esses dois meninos conhecendo a neve que nem eu conheci ainda.

Solicitei a transferência das passagens quando faltava 20 dias para a viagem e o que era para ser analisado em 72 horas teve um retorno positivo por e-mail em 8 horas. As passagens agora estavam nos nomes dos dois.

Foram dias de euforia, alegria compartilhada entre todos no escritório. 

Teve parte do salário sendo antecipado.

Teve vaquinha para ajudar com os custos da viagem. 

Teve quem emprestou o cartão para parcelar o Airbnb. 

Teve malas e roupas de frio emprestadas. 

Teve como presente para os dois, roupas térmicas e jaquetas. 

Foi lindo ver toda essa movimentação.

E no dia 22/06 eles embarcaram para o Chile com direito a bagagens de mão. Sim!

E foi um dos momentos mais bonitos da minha vida, saber que de alguma forma eu participei da realização de um sonho que nem eles sabiam que tinham.


Foi maravilhoso acompanhá-los enquanto conheciam uma parte do mundo e ao mesmo tempo vê-los descobrindo que eles também PODEM ser TUDO o que eles quiserem.

Penso que a semana seguinte à volta do Chile seria justamente aquela em que eu descobriria a gravidez, seguida da perda que contei aqui. E será que eu não atribuiria a perda às aventuras na neve? E a viagem que era para ser a realização de um sonho poderia se transformar em culpa?

A reflexão que fica é que tudo o que parecia dar errado no começo simplesmente se desfez. A falta de sincronia das agendas, a dificuldade em solicitar o cancelamento, que parecia indicar um prejuízo, e a frustração de descobrir que ainda não era o nosso momento de conhecer a neve acabaram se transformando em algo muito maior e com mais significado.

Falando sobre mim, eu fico feliz em ver a Lidi de hoje colaborando e se alegrando com outras pessoas realizando o que nem ela mesma ainda realizou. Eu sei que a Lidi de pelo menos 5 anos atrás não conseguiria esse feito.

Bjs pra mim!

Comentários