Quando um sonho sobrevive ao impossível
Antes de existir essa versão da Lidi depois de 40tar que acredita que sonhos podem ser realizados e que somos os responsáveis pela cocriação da nossa realidade, existiu a versão de uma criança que vivenciava um conflito interno entre acreditar nos próprios sonhos e desacreditar da vida por conta da dura realidade em que vivia.
Eu tinha entre 6 e 7 anos de idade (não tenho certeza da idade) quando vi na TV, talvez fosse um comercial em que uma criança deixava uma cartinha de Natal para o Papai Noel e, na manhã seguinte, abria a janela e encontrava um presente deixado pelo bom velhinho.
Eu acreditei que era simples assim, e que eu só precisava escrever minha carta e no dia seguinte eu abriria a janela e minha tão sonhada boneca da Xuxa estaria ali.
É muito importante falar que eu morava em um barraco no morro, onde, quando a janela era aberta, a visão era de um penhasco cheio de mato.
Escrevi minha cartinha, e obviamente no dia seguinte abri a janela e vi o que via todos os dias, o penhasco.
Mas eu fecho os olhos e eu lembro da sensação de certeza que eu tinha enquanto escrevia a carta, e lembro principalmente da euforia que senti quando levantei da cama e fui abrir a janela. Eu também sinto o gosto amargo na boca quando eu lembro do tamanho da decepção que eu senti ao não ver a boneca da Xuxa pendurada naquela janela. Sim, eu tinha certeza de que o Papai Noel daria um jeito de deixar meu presente ali.
Engraçado é que eu tinha consciência de que a realidade da minha janela era totalmente diferente da janela da casa do comercial. Eu sabia que a minha era feia comparada a da TV.
Eu sentei no meu sofá velho que tinha as molas aparentes, e fiquei tentando processar o porquê o Papai Noel tinha esquecido de mim. O nó na garganta era tão forte que doía engolir a saliva.
Tentei sondar a minha mãe na época para entender se o Papai Noel atrasava, sem contar o que aconteceu, e hoje eu sei que ela me sacou, porque lembro dela sofrendo mais que eu para me dizer que Papai Noel não existia. E eu chorei!
Dias depois, lembro que ela soube que em algum lugar da nossa periferia teria uma ação social para presentear as crianças carentes da nossa região. E ela me levou até lá. Tinha um Papai Noel que eu já não enxergava mais com a mesma magia, e ele me deu uma boneca de plástico inspirada na Xuxa, igualzinha essa da foto que encontrei na internet, porém a minha era na cor azul.
Eu não fiquei feliz, porque eu sabia exatamente qual boneca tinha pedido ao Papai Noel. Era a original e não uma de plástico barato rs
Mas a minha mãe achou mágico eu ter desejado e recebido uma boneca da Xuxa mesmo que não fosse a original, e ela tentava me animar com um brilho especial nos olhos, então eu aceitei a ideia de que a boneca era muito legal e o que podia ter naquele momento rs.
Eu não desisti da ideia de ter uma boneca da mulher que alegrava a minha vida dura pela tela da TV P/B de tubo que tínhamos no barraco.
Cresci ouvindo a Xuxa dizer que Querer é Poder e Poder é Vencer. Tanto que tatuei isso na pele.
Inclusive a música Lua de Cristal é meu mantra até hoje depois de 40tar.
Eu sempre digo que, dos meus 4 aos 7 anos, minha mãe foi a maior incentivadora do meu amor pela Xuxa. Lembro dela me levando aos camelôs para comprar roupinhas, minissaias e botinhas brancas. Lembro dela me levando ao cinema para ver filme da Xuxa com os trapalhões, comprando o disco do primeiro Xou da Xuxa e pedindo para nossa vizinha adolescente me ajudar a escrever cartas para o programa da Xuxa na esperança de conhecê-la pessoalmente.
E um dia resolvi que se o bom velhinho não existia, a minha mãe teria que ser a pessoa a me dar a tal boneca da Xuxa. E eu pedi. E eu nunca vou esquecer a didática que ela utilizou para me explicar que ela não poderia comprar a boneca. Se eu fechar os olhos eu vejo a cena. Eu tinha uma banheira rosa com patinhos brancos desenhados de quando eu era bebê pendurada em um prego na parede de madeirite do barraco. Ela pegou a banheira e colocou em cima da cama e me disse:
- Filha, para mamãe conseguir te dar essa boneca, eu tenho que encher essa banheira de dinheiro três vezes, eu não tenho esse dinheiro.
E naquela hora duas coisas aconteceram:
Primeira, eu compreendi sem questionar e aceitei o fato de que minha mãe não me daria porque não conseguia e não porque não queria. E apenas aceitei!
Segunda, nesse dia eu desenvolvi uma crença que me perseguiu até outro dia, de que certas coisas não foram feitas para eu acessar.
E isso se estendeu a tudo na minha vida desde coisas, bens, lugares, pessoas e principalmente dinheiro.
Os anos foram passando, muitas coisas aconteceram com a minha mãe, como uma separação inesperada com meu padrasto da época, seguida de um assalto no barraco que morávamos, e ela encontrou refúgio e conforto na igreja evangélica, que tinha como base uma religião extremamente rígida e que afirmava que a Xuxa, a mulher que me salvava na minha infância, tinha pacto com forças malignas.
Minha mãe sofreu uma lavagem cerebral, jogou tudo o que eu tinha da Xuxa fora sem me pedir licença, sem muitas explicações e só demonizando a pessoa que eu mais admirava na vida. Eu sofri calada, sem questionar, pois essa religião também ensinava que os pais não deviam ser questionados, e caso os filhos fizessem deveriam ser castigados com a vara (a famosa agressão física).
Depois disso, tudo foi piorando, um certo dia a chuva acabou levando o barraco e tudo o que tínhamos dentro embora e viramos duas sem teto. A vida dura de fato começou aí, mas falo disso em um outro post.
Anos se passaram e meu amor pela Xuxa e todo o seu universo era mantido em segredo, passei a adolescência toda inventando que eu tinha trabalhos escolares para fazer na casa de algumas amigas, para poder assistir os programas e os especiais da Xuxa na TV. Era uma humilhação atrás da outra para ver a Xuxa pela TV escondida da minha mãe.
Não tinha um único dia da minha vida que eu não verbalizasse que um dia eu iria conhecer a Xuxa pessoalmente. Eu sabia que isso ia acontecer, meu corpo inteiro vibrava quando eu mentalizava esse momento. Eu só não sabia como seria.
Em 1996, Xuxa fez um show em SP da turnê Tô de bem com a vida. Dias antes do show, eu passei de ônibus nas proximidades do Ginásio do Ibirapuera (lugar do show), vi um cartaz preto com letreiro rosa divulgando o Xou e meu coração doeu por saber que ela estaria tão pertinho. Eu não conseguiria ir por falta de dinheiro, porque minha mãe jamais permitiria. No dia seguinte cheguei na escola e duas amigas conseguiram ingressos de última hora e foram. Eu quase morri de inveja. Juro!
Em 1997 eu lembro que o telefone fixo chegou na periferia, e na minha casa só durou um mês, a pobre da minha mãe não deu conta de pagar as contas telefônicas, porque eu passava o dia inteiro ligando em todos os telefones da Rede Globo (interubano) que eu encontrava na lista telefônica para pegar informação de como eu podia assistir a gravação do Planeta Xuxa.
Eu também era especialista em ligar em gráficas e fazer a pobre da atendente perder muito tempo me ouvindo falar em como eu queria que ela confeccionasse a faixa que eu iria levar para o programa da Xuxa a fim de chamar a atenção dela. E quando a pessoa do outro lado da linha falava sobre forma de pagamento eu desligava o telefone. Eu só queria sonhar em voz alta, mesmo não tendo um centavo para aquilo rs.
O ano era 2002 quando minha mãe casou de novo, fomos morar na casa do meu padrasto e lá herdei um quarto das filhas dele que não moravam mais lá, e meu tio me presenteou com uma TV.
O programa da Xuxa nessa época era 100% voltado para criancinhas e eu já estava com 20 anos, não era o tipo de programa que eu gostava de acompanhar.
Entre 2004 e 2005 eu e meu irmão ganhamos um computador e graças aos fãs da Xuxa que abasteceram o YouTube com muitos vídeos dos programas dos anos 80 e 90 eu consegui reviver uma época que foi roubada de mim. Eu lembro que eu virava a madrugada assistindo e chorando.
Nessa mesma época o auge era o finado Orkut e eu passei a acompanhar quase todas as Paquitas e me atualizar da vida delas e fiz muitos amigos do mundo da Xuxa nessa época.
Não lembro exatamente em que ano foi, mas eu me inscrevi e inscrevi meu primo numa promoção de uma rádio de SP para ir numa coletiva de imprensa da Xuxa, e adivinha? Meu primo foi sorteado e eu não, ele teve que ir mesmo sem ser fã para que eu pudesse ir como acompanhante dele. Vi a Xuxa a quilômetros de distância. Mas valeu demais pra mim.
Depois fui sem ingresso em um show do XSPB (Xuxa só para baixinhos, literalmente rs), e fiz amizade com fãs na porta que me deram ingressos para assistir o show. O lugar era o mais distante do palco possível, mas eu estava lá cantando 5 patinhos e feliz da vida hahahaha.
E em 2009 eu fui pela primeira vez para a gravação de um programa da Xuxa, nessa época ela tinha voltado a fazer programas para o público que cresceu com ela. Uma amiga da época muito próxima de uma das Paquitas que mais tarde se tornou produtora do programa da Xuxa me levou, e graças a ela eu acessei todos os bastidores do Projac com direito a crachá da Globo e andar de carrinho de golfe. Eu estava vivendo além do que eu já tinha sonhado.
E foi no meio dessas andanças pelo Projac que encontramos a Rainha da minha infância chegando no estúdio para iniciar as gravações, e foi ali que toquei nela pela primeira vez, abracei, beijei e tirei minha primeira foto com ela.
Depois disso, fui em mais algumas gravações do programa dela e tirei outras fotos. E em uma dessas gravações eu olhei para ela e pedi um beijo no rosto, só quem foi criança nos anos 80, sabe o quão desejada era a marquinha que ela fazia no rosto dos baixinhos no final do programa, e ela simplesmente se abaixou e beijou meu rosto. Eu morri nessa hora. Meu Deus, como eu amo essa mulher!
Também participei de um quadro do programa fazendo um pedido inusitado para Xuxa, e ela atende o pedido me chamando de Li. Você tem noção? A menininha que mora dentro de mim e que assistiu a mãe destruindo tudo o que ela tinha da Xuxa, chorou nesse dia. Você pode assistir aqui.
Junto com essa amiga, eu fui em aniversário de 30 anos de ex Paquita, fui a praia com outra ex Paquita, fui para o Espírito Santo para o casamento de outra integrante da turma da Xuxa e no meu casamento recebi presente de casamento da minha ex Paquita preferida.
Também no meu casamento minha daminha entrou com a música Doce Mel. Na hora das homenagens houve vídeos de parte da turma da Xuxa me desejando felicidades.
Tem noção de que as meninas que me inspiraram a vida toda, me conheciam, me chamavam pelo nome e me convidavam para festa de casamento?
Eu sempre fui muito abençoada com minhas amizades, mas só hoje eu sei valorizar as preciosidades que eu tenho. Naquela época, dentro daquela mulher com potencial de manifestar sonhos coexistia uma pessoa machucada, amarga, traumatizada e que sabia ser uma grande FDP com as pessoas que mais me amavam. Eu estragava tudo e me esforçava muito para afastar as pessoas de mim para eu acabar sozinha. E foi exatamente isso que eu destruí todos os laços que fiz naquela época.
Hoje eu sei que no fundo eu estragava tudo porque eu acreditava que eu não merecia viver nada daquilo.
Perdi total contato com aquelas pessoas. Fiquei distante do mundo da Xuxa por muitos anos.
Anos mais tarde fui com uma das minhas melhores amigas em um show que a Xuxa fez voltado para o público adulto, com direito a nave e tudo mais, cantei, chorei e lavei minha alma. Foi lindo, porque nessa época eu já estava fazendo terapia para entender minha mãe e liberar perdão. Esse show foi curativo nesse sentido.
E no último sábado (25/07) fui com três amigas super especiais na estréia do show de despedida da Xuxa, intitulado: O último voo da nave. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida, ver no palco a Minha Xuxa, parte das Paquitas que sempre amei e a nave sobrevoando o estádio.
Tem noção que 50.000 pessoas lotaram um estádio para resgatar uma infância dos anos 80 e 90? E eu estava lá!
E essa é mais uma das minhas histórias que só ganharam sentido anos depois.
Obviamente, a Xuxa não me conhece, mas foi a responsável por colorir os dias cinzentos da minha infância e a maior motivadora para que eu acreditasse nos meus sonhos.
Bjs pra Xuxa e para Lidi versão baixinha que sempre acreditou, mesmo a vida insistindo em provar que tudo era impossível.
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