Nine Days e algumas coisas sobre estar viva
Sabe aqueles filmes que te fazem ficar meio em silêncio?
Foi assim que eu fiquei depois de assistir Nine Days (Nove Dias).
É o tipo de filme que te faz pensar que a vida não precisa ser perfeita para ser vivida de forma completa e genuína.
Eu não quero dar spoiler do filme, mas ele te faz refletir sobre o quanto deixamos as coisas mais importantes da vida passarem despercebidas no dia a dia, como a luz entrando na janela, o vento na pele, as pessoas ao nosso redor.
A correria do dia a dia rouba da gente a presença, a empatia, a curiosidade e a capacidade de se maravilhar com o belo que, na maioria das vezes, é simples.
Às vezes estamos tão focados em atingir os objetivos que estabelecemos para nós mesmos que esquecemos de olhar para o lado e perceber que o que já se tornou simples para nós ainda é sonho de alguém.
Muitas vezes, o desejo de alguém não é fama, dinheiro ou uma vida extraordinária. Talvez seja contemplar a beleza de um dia de sol, a importância de um dia de chuva, o sol queimando na pele, uma flor crescendo no jardim.
Essas coisas não deveriam ter sido banalizadas por nenhum ser humano.
E não estou querendo dizer que a vida é uma eterna linha reta de alegrias. Ninguém é ingênuo a ponto de ignorar que a vida também contém dor. Só não dá para aceitar a ideia de que a dor é a única lente pela qual se deva enxergá-la.
Até uma vida com limitações, frustrações e perdas contém momentos que só podem existir porque estamos aqui, vivendo.
E terminei o filme com vontade de viver, vencer, ousar e aproveitar a minha existência. Talvez tenha me tocado tanto justamente porque ele retrata, de maneira simbólica, algo em que eu acredito há muito tempo sobre como viemos parar aqui na vida humana.
Acredito que exista alguma seleção anterior à vida humana que defina quando o nosso eu interior está apto a receber o presente chamado VIDA, antes mesmo da famosa corrida dos espermatozoides (em que, entre incontáveis possibilidades, uma combinação única deu origem a mim). Ainda assim, acredito que não exista um candidato perfeito para vivê-la.
E mesmo que eu não enxergue a vida como um prêmio concedido a quem mereça vivê-la, eu creio que ela é uma oportunidade dada a quem está disposto a experimentá-la: amar, errar, criar, sofrer, cantar, sentir o vento no rosto, comer algo gostoso e ter encontros extraordinários.
É por isso que eu acredito que nem todo ser se torna humano.
No meu caso, transformo as tentativas da minha mãe de interromper a gravidez em mais uma motivação. Uma gestação que enfrentou resistência e continuou só me mostra que a minha vida insistiu em acontecer. E agora eu quero honrar isso vivendo. Se estou aqui respirando, consigo perceber o tamanho do privilégio misterioso que é estar viva.
E quando me dou conta do ar nos meus pulmões, do sangue correndo pelas minhas veias, sinto que fui escolhida, que atravessei camadas de possibilidades, cheguei até aqui e minha vida merece ser vivida intensamente e por inteiro.
Entendi que eu não preciso justificar a minha vida com uma experiência extraordinária. Estar aqui, perceber e me conectar já é parte do segredo de uma vida plena.
Eu não preciso conquistar o direito de estar aqui. Eu já estou aqui. Que honra!
O valor da vida não está apenas nas nossas realizações, mas na nossa capacidade de estarmos presentes para vivê-la.
E finalizo este texto desejando que, se você chegou até aqui, também sinta vontade de participar da sua própria existência. Sua vida é o seu bem mais precioso!
Pai e Mãe, obrigada pela vida que me deram. Vou honrá-la vivendo intensamente!
Bjs pra mim!
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